Passando de ônibus, Ninguém percebe a árvore gigante, que quase não balança com o vento, forte, majestosa e quase arrancando o concreto em sua volta, quase caindo, mas destruindo o concreto, levando todo o prédio junto. Estática por anos, aproveitando tudo a sua volta, de repente se surpreendeu com tudo mudando: construções, fios, grades, humanos (dizendo-se evoluídos intelectualmente); encarcerando, pondo em risco sua grande fonte de vida e sombra fresca.
Isso que deve acontecer quando temos quase 18 anos. Percebemos coisas que antes eram ofuscadas pela vida boa que vivíamos, aproveitando tudo a nossa volta. Alguns, porém, percebem que isso tudo é uma farsa, distração para as verdadeiras mudanças que ocorrem lá fora. Ao ter um lapso de realidade, queremos sair dessa maldade e falsidade que nos cerca, mas já estamos presos há mais de 10 anos. Fomos pegos pelo sistema, arrancados de nossos berços, direto para a faculdade, sem tempo para respirar, pensar e escolher o que realmente nos importa.
Enganam a todos, encarceram o rebanho e os mantêm alienados. Alguns permanecem assim para o resto da vida e não dão importância aos 18 anos que viveram presos, sentem-se um pouco mais livres e para estes, somente isso basta, continuando suas vidas vazias de movimentos repetitivos. Há outros que percebem toda a fraude desde pequenos, mas tentam seguir o plano de alienação até os 18, a grande ilusão desse mundo fechado, em que uma idade significa tão pouco, porém, para os não alienados, é a idade para jogar tudo para o alto, se libertar do rebanho, arrancar o concreto.
Presos no trânsito, os alienados sempre atrasados, aproveitam para adiantar suas tarefas: pintar as unhas, colocar as pernas para cima, fumar um cigarro, ouvir uma música, fazer xixi (levantando as calças correndo com o amigo palhaço arrancando o carro), sorrir! Coisas difíceis de realizarem em casa, na escola ou trabalho. Até mesmo aqui, nunca havia me dado conta de que ninguém sorria, de que problemas na saúde, a maioria eram ligados à boca. Cigarro, má alimentação, infecções, dentes pobres; tudo passava despercebido, Ninguém nunca sorria.
Minha infância cheia de alegrias, tranquila, com saúde e viagens anuais, foi guardada dentro de três caixas pretas, que passam todos os dias imagens felizes para a iludida família brasileira. Onde será que esconderam a cumplicidade, o carinho, respeito e atenção? Me sinto consumida até a última gota, vazia de sentimentos por essa sociedade que prega igualdade em sua falsa democracia. Não serão os 18 anos que me libertarão, mas sim a raiva contida por tanto tempo que não se aguenta mais dentro de mim. É a idade em que as cobranças do sistema chegam ao seu último grau e que alguns conseguem mandá-las pra MERDA.