terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Falta 1 dia!

Havia um retrato pendurado no quarto da minha avó há anos, desde muito antes de eu descobrir que eu tinha um "defeito". Eu nunca havia prestado realmente atenção àquele casal de velhinhos olhando para mim. Foi quando descobri que o meu tataravô, que apesar de ter falecido seis anos antes do meu nascimento, havia me entregado um pedacinho dele para que eu carregasse para sempre. 

De repente, eu me senti única e ao mesmo tempo unida a alguém, que pelo menos em algum momento da vida, havia compartilhado dos mesmos sentimentos e angústias que eu carregava todo aquele tempo. 

Me senti grata em ter uma ligação tão nítida com aquele senhor engraçado e franzino que eu nunca conheci, ele provavelmente nem se importava com aquele “defeito” ou fazia até graça sobre isso, mas eu, que havia nascido em outra época, infelizmente não era possível aceitar aquilo como algo banal. 

Então, desde que prestei atenção àquela foto e percebi aquela ligação genética, eu resolvi que faria uma cirurgia, mas não para apagar aquele "defeito" e sim para eu me aceitar de alguma forma e fazer graça disso algum dia, como o meu querido tataravô fazia. 

Com apenas dezessete anos de idade, eu encontrei alguém que eu sempre sonhava, mas achava que não existia. No caso, ela era real e eu tive a sorte de encontrá-la bem cedo, porque mesmo jovens, já estávamos destruídas por dentro, por isso nos conhecemos para reconstruirmos as nossas vidas, juntas.

Essa pessoa chave abriu os meus caminhos para a verdadeira libertação e principalmente para a aceitação de toda aquela dor. Me propiciou mudanças de atitudes e agora, propiciará minha mudança de vida, em que enfim, consertarei aquele "defeito", que agora já nem é encarado dessa forma.

A sociedade me obrigou a pensar assim durante a vida inteira, mas hoje, eu só quero me sentir bem comigo mesma sem essa parte que sobra em meu corpo e me lembra de tudo de ruim que já vivi. Esse será o último peso, o último fardo, a última máscara e a última lembrança de um passado que já não importa, pois nós estamos finalmente juntas!

E talvez, algum dia, a nossa foto esteja pendurada no quarto da terceira ou quarta geração da nossa família e signifique alguma coisa especial para eles. Tenho certeza que a nossa história existirá como prova de que mesmo incompreendidas, nós nos amamos mais do quê tudo e por isso conquistamos o infinito! 

Mesmo que não esteja escrito, como na foto no quarto da minha avó, sei que todos saberão disso: "Duas criaturas que se amavam tanto, talvez até mais que Romeu e Julieta."

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Faltam 2 dias ...

Eu ainda não me sentia completamente feliz, pois estava acorrentada ao amor doentio e às consequências ruins do meu trauma sem fim. 

Longe dos meus iguais eu voltava a ficar triste, por isso comecei a achar que a felicidade que eu tinha com eles era falsa, mas hoje eu entendo que aquilo foi o início da libertação de toda a repressão de sentimentos que eu havia tido e graças à descoberta dos meus iguais, que eu pude encontrar a chave para me desacorrentar de todos os sofrimentos.

Primeiro, a chave abriu as correntes daquele amor que era uma mentira, uma obsessão entre vítima e sequestrador, que havia me iludido com promessas vazias para roubar o meu ouro e me levar ao precipício. Por sorte eu não me joguei do abismo, que seria a solução mais fácil, mas junto com todas as consequências dessa história ruim e dos traumas que acumulei por causa daquele defeito, a chave foi abrindo todos os cadeados e me desenrolando de todas aquelas correntes. 

Quando eu já estava praticamente livre da minha culpa e timidez ao extremo, tive coragem de falar e mostrar pela primeira vez o meu defeito, mas aquilo já não era importante pra mim, pois enfim eu estava feliz, com aquela pessoa especial que me aceitava exatamente do jeito que eu era.

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Faltam 3 dias ...

Eu me libertei inconscientemente daquele novo mal em minha vida, fazendo o quê eu mais sabia: algo proibido, algo que iniciou um processo de autoconhecimento e aceitação de que eu era realmente diferente, mas não era por causa do meu defeito, novamente era algo interno e mais profundo do que eu imaginava. 

Descobri que eu era ainda mais diferente, mas não por um defeito externo que eu poderia esconder disfarçadamente, era algo maior e mais forte, que vinha de dentro. Eram sentimentos e sensações diferentes, mas que não me prendiam em um casulo como aquele “amor” doentio ou como as consequências do trauma de ter aquele pequeno e maldito defeito de fábrica. 

Era uma libertação de tudo isso, era a chance de me tornar eu mesma sem precisar me forçar a ser diferente só para ir contra aos normais. Eu era realmente diferente e o melhor de tudo: eu não estava sozinha! 

Enfim eu achei pessoas iguais a mim, nem superiores aos meus sofrimentos, nem inferiores aos meus defeitos, com eles eu pude aproveitar a vida sem restrições ou empecilhos.

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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Faltam 4 dias ...

Eu consegui o quê eu queria, consegui colocar para fora o quê eu sentia por dentro, toda a raiva e sofrimento eram expressos através do quê eu gostava e do quê eu fazia. Porém, para piorar, eu encontrei uma rocha no meu caminho, a personificação de tudo que eu mais queria, mas que se tornou o quê eu mais temia. 

Pela primeira vez eu fui criticada, humilhada e excluída, não pelo meu defeito, mas indiretamente pelo o quê ele havia me causado todo esse tempo e que agora seria ainda mais difícil de ser mudado. Logo quando eu estava pronta para me livrar de toda aquela timidez, logo quando eu me sentia normal mesmo sendo diferente.

Após quase um ano de prisão que foi confundido com amor, eu fiquei acorrentada àquilo por mais três anos de sofrimento, achando que eu era a culpada, mesmo eu sendo muito nova ou muito tímida e não sendo responsável por nada que envolvia aquela doença. 

Eu me senti assim, pois eu já era vulnerável, eu me sentia culpada desde o dia em que havia descoberto aquele defeito, tendo que esconder todos os meus sentimentos e me sentindo inferior à todos, até aos que compartilhavam da mesma dor e angústia que eu. 

Eu havia aprendido que até o meu sofrimento era menos importante do que das pessoas que lidavam com os seus defeitos à flor da pele, por isso eu aceitei o sofrimento, aceitei que eu era o ser mais insignificante da Terra.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Faltam 5 dias ...

Mesmo me sentindo sempre inferior à tudo e à todos, eu comecei a ter tanto ódio dos normais, que tudo que fosse considerado ligeiramente diferente, me agradava. 

Os garotos considerados feios, nunca foram vistos por mim dessa forma, eu os enxergava com muitas outras qualidades. Os colegas que todos excluíam por serem estranhos, sempre acabavam conversando comigo, já que eu me tornei um deles aos poucos. 

Por fim, eu fazia de tudo para chocar os normais, andava com roupas pretas e esquisitas, ouvia as bandas que só os mais velhos gostavam e fazia tudo à frente do meu tempo, tudo que não era adequado para a minha idade. 

Só assim eu comecei a gostar de ser diferente, mas logo depois eu conheci pessoas que gostavam de mim mesmo sendo assim, por isso eu parei de me preocupar em chocar os normais, pois até eles passaram a enxergar que eu continuava sendo uma garota legal, eu era apenas diferente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Faltam 6 dias ...

O normal também não tem explicação, eu pelo menos, nunca entendia porque algumas amigas minhas eram tão felizes, pois para mim, o sofrimento e a tristeza já eram normais. 

Outras amigas tentavam medir as suas dores com as minhas. Muitas delas tinham diferenças externas que não dava para esconder dos demais, por isso elas sofriam muito mais do quê eu, seja com brincadeiras, exclusão ou até violência física e emocional. Dessa forma, eu sempre aceitava que todos estavam acima de mim, com motivos maiores que os meus, com prioridades mais nobres ou até com dores piores. 

Eu nunca tinha levado uma surra ou sido humilhada em público por causa desse defeito, mas o fato de ser obcecada em escondê-lo, era como ser perseguida todos os dias por uma gangue do colégio, que a qualquer momento poderia me tirar do esconderijo e mostrar a todos o quê eu escondia.

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Faltam 7 dias ...

Talvez eu não tenha sofrido tanto quanto as crianças que não tinham como esconder suas diferenças, pois para os outros eu só era uma garota estranha que gostava de rock, eu conseguia esconder o meu segredo. 

Então, acredito que as crianças muito altas ou muito baixas, muito magras ou com sobrepeso, com nariz grande, lábios grossos, cabelos volumosos, dentes tortos ou simplesmente as que usavam óculos, todas elas e várias outras podem ter sofrido muito mais do quê eu, mas justamente por ter escondido o meu defeito, eu não tinha como justificar o porquê que eu era tão traumatizada, tão complexada, tão isso ou tão aquilo. 

Isso só me fez ficar ainda mais fraca, me sentindo ainda mais diferente dos seres humanos normais, que precisam explicar o motivo de tudo que é diferente, pois o quê não é igual ou comum à eles, não pode existir sem ter uma razão aparente.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Faltam 8 dias ...

E assim, surgiram as primeiras consequências daquele trauma, eu que já era filha única e um pouco superprotegida, me tornei amedrontada e não desenvolvi a coragem e ousadia de ser uma criança normal, cheia de força e energia. 

Me tornei quieta e ainda mais tímida. Como eu já era acostumada a brincar sozinha, não foi difícil tomar aversão aos jogos e esportes de equipe e me adequar à atividades introspectivas, como ler, escrever e ouvir música. 

Os traumas foram crescendo, o fardo foi se acumulando e a cada dia eu tinha mais raiva de mim mesma, de não conseguir esconder aquela maldição adequadamente ou por nunca poder me livrar dela completamente. 

Me machuquei várias vezes e sofri por cada perda que eu havia tido em apenas quinze anos de vida, justamente por minha falta de ação, por minha falta de coragem e pela minha timidez, que me barravam de fazer tudo. 

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Faltam 9 dias ...

"Adultos dizem que a infância é a melhor parte da vida porque não lembram mais como era ser criança." (A Lenda de Ruff Ghanor - O Garoto-cabra, Leonel Caldela)

Quando eu descobri que ser perfeita só para a minha mãe não era o suficiente, foi como se aquele mundo de faz de conta fosse uma farsa, eu deixei de ser criança e cresci. De repente eu não era a menina mais linda do mundo e definitivamente eu deveria esconder aquele defeito para sempre. 

Essa era a condição para que eu fizesse parte do grupo de crianças normais, por isso passei a preocupar com o meu exterior muito antes das garotas da minha idade, passei a me arrumar melhor com apenas dez anos de idade. Me preocupava em sempre esconder aquela parte de mim, que me perseguia todos os dias, impedindo que eu fizesse qualquer tipo de atividade, impedindo que eu corresse, impedindo que eu nadasse, impedindo que eu pulasse, impedindo que eu vivesse.

Mesmo eu me achando horrível, eu conseguia conquistar "admiradores", mas a maioria só se tornaram grandes e arrasadores amores platônicos. A mania de pensar que ninguém gostava realmente de mim era maior do quê qualquer sentimento puro e inocente, pois se vissem o quê eu escondia, com certeza não iriam querer namorar a garota que ficava feia após uma pequena modificação no penteado. 

O problema era que eu sabia que eu não era normal, eu tinha um segredo, então não adiantava dizer que meu rosto ou cabelo eram bonitos, pois eu escondia algo que poderia mudar a opinião dessas pessoas em apenas um segundo. 

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Faltam 10 dias ...

Crianças que viram adultos se esquecem de como o mundo é cruel desde a infância. Ficamos tão atarefados e preocupados com o nosso novo mundo, que sentimos apenas saudades dos bons momentos de quando éramos pequenos, nos esquecendo de como nesse tempo a vida já era difícil. 

A vida só foi piorando porque as responsabilidades cresceram junto conosco, mas para uma criança o fardo é tão pesado quanto o de um adulto, às vezes ainda mais desproporcional à sua idade e ao quanto ela é capaz de carregar ao longo do tempo.

Para as mães, nós somos o milagre da perfeição. Eu que sou filha única então, para a minha mãe eu sempre serei a mais linda do mundo e ninguém nunca dividiu esse pódio comigo. Porém, desde bem pequena me ensinaram que eu tinha algo diferente dos demais, algo que não servia para mim, que não se adequava ao meu corpo. 

Ao me arrumar para a escola ou para sair, minha mãe não fazia questão de esconder aquele defeito, pois mães são assim, elas não enxergam nada de errado com seus filhos e mesmo quando veem, não sentem vergonha deles e nunca permitem que alguém critique ou zombe do jeito que eles são. Minha mãe me forçava a mostrar aquele fardo horrível para todo mundo, pois para ela eu era perfeita e aquilo se encaixava perfeitamente para mim. 

Só que nem sempre seguimos o caminho que os pais esperam. Desde pequena eu segui tudo que queriam de mim e escondi o quê eu realmente pensava sobre isso, pois para mim isso era comum e inevitável. Até que aos poucos as máscaras foram caindo e eu descobri que não era realmente feliz seguindo os padrões que me eram impostos constantemente. 

Agora, não vejo a hora de me livrar da última máscara, que foi a origem de todas as outras fantasias que vesti. 

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