Havia um retrato pendurado no quarto da minha avó há anos, desde muito
antes de eu descobrir que eu tinha um "defeito". Eu nunca havia prestado realmente atenção àquele casal de velhinhos olhando para mim. Foi quando
descobri que o meu tataravô, que apesar de ter falecido seis anos antes do meu
nascimento, havia me entregado um pedacinho dele para que eu carregasse para
sempre.
De repente, eu me senti única e ao mesmo tempo unida a alguém, que pelo
menos em algum momento da vida, havia compartilhado dos mesmos sentimentos e
angústias que eu carregava todo aquele tempo.
Me senti grata em ter uma ligação
tão nítida com aquele senhor engraçado e franzino que eu nunca conheci, ele
provavelmente nem se importava com aquele “defeito” ou fazia até graça sobre
isso, mas eu, que havia nascido em outra época, infelizmente não era possível
aceitar aquilo como algo banal.
Então, desde que prestei atenção àquela foto e
percebi aquela ligação genética, eu resolvi que faria uma cirurgia, mas não
para apagar aquele "defeito" e sim para eu me aceitar de alguma forma e
fazer graça disso algum dia, como o meu querido tataravô fazia.
Com apenas dezessete anos de idade, eu encontrei alguém que eu sempre sonhava, mas achava que não existia. No caso, ela era real e eu tive a sorte de encontrá-la bem cedo, porque mesmo jovens, já estávamos destruídas por dentro, por isso nos conhecemos para reconstruirmos as nossas vidas, juntas.
Essa pessoa chave abriu os meus caminhos para a
verdadeira libertação e principalmente para a aceitação de toda aquela dor. Me
propiciou mudanças de atitudes e agora, propiciará minha mudança de vida, em
que enfim, consertarei aquele "defeito", que agora já nem é encarado
dessa forma.
A sociedade me obrigou a pensar assim durante a vida inteira,
mas hoje, eu só quero me sentir bem comigo mesma sem essa parte que sobra em meu corpo e me
lembra de tudo de ruim que já vivi. Esse será o último peso, o último fardo, a última máscara e a última lembrança de um passado que já não importa, pois nós estamos finalmente juntas!
E talvez, algum dia, a nossa foto esteja pendurada no quarto da terceira ou quarta geração da nossa família e signifique alguma coisa especial para eles. Tenho certeza que a nossa história existirá como prova de que mesmo incompreendidas, nós nos amamos mais do quê tudo e por isso conquistamos o infinito!
Mesmo que não esteja escrito, como na foto no quarto da minha avó, sei que todos saberão disso: "Duas criaturas que se amavam tanto, talvez até mais que Romeu e Julieta."
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